Paraísos do Nordeste viram ‘cidades-fantasma’ devido à pandemia

Entre as medidas, há locais que só permitem entradas de moradores e proíbem expressamente o banho de mar.

16 de abril de 2020

Foto: Reprodução

O guia turístico Bruno Mendes, de 40 anos, vive em Porto de Galinhas, uma das praias mais badaladas de Pernambuco. Acostumado a conduzir visitantes por paraísos naturais, ele decidiu pegar uma câmera e sair filmando o novo cenário por lá. À beira-mar, onde guardas-sóis e banhistas disputam cada palmo de areia na alta estação, não se via ninguém. No centro comercial, idem. Até mesmo a Rua das Sombrinhas, enfeitada com adereços de frevo e queridinha da turma da selfie, estava vazia. Preocupado, ele desabafa: “Nunca vi isso aqui assim: está parecendo uma cidade-fantasma”.

Com o isolamento social e a suspensão de atividades turísticas por causa do novo coronavírus, o esvaziamento populacional é uma realidade enfrentada por vários destinos do Nordeste. Entre as medidas, há locais que só permitem entradas de moradores e proíbem expressamente o banho de mar.

Para dar um mergulho, só escondido de policiais militares ou guardas-civis que fiscalizam a orla e se esforçam para retirar pessoas que não seguem as restrições.

Em Pernambuco, praias e parques estaduais estão temporariamente fechados desde a primeira semana do mês, por decreto do governador Paulo Câmara (PSB), que já foi prorrogado duas vezes. Iniciativas semelhantes também foram adotadas em outros Estados do Nordeste, como Bahia, Alagoas e Maranhão.

“Aqui, os salva-vidas estão pedindo para que as pessoas não fiquem na praia, até os surfistas precisam sair. Caso alguém se negue, aí chamam a guarda para retirar o pessoal”, conta Mendes. Localizada no município do Ipojuca, Porto de Galinhas mantém só serviços essenciais, como supermercados e farmácias, abertos. “Está tudo paralisado. A praia recebe cerca de 100 mil pessoas por mês e, de uma hora para outra, não têm mais ninguém.”

Mendes é natural de Minas e decidiu morar em Porto há seis anos, onde fatura uma média de R$ 5 mil por mês com passeios de lancha, segundo relata. Em 2019, o turismo da região já havia sofrido com o vazamento de óleo nas praias, mas foi o coronavírus quem reduziu seu ganho a zero. “O ano está bem complicado”, diz. “Consigo segurar até maio, depois disso vou ter de pescar ou arrumar outra forma para cumprir com as minhas responsabilidades. Não está entrando nada, só saindo: aluguel, energia, internet. As contas não param.”

Famosa pelas piscinas naturais de águas cristalinas e cenário paradisíaco, a Praia dos Carneiros, na cidade de Tamandaré, também virou “fantasma”. Pousadas, hotéis, bares e restaurantes cerraram as portas. Em lojas de conveniência, vendedores entregam produtos aos clientes através de janelas de proteção.

“Está vazio, vazio. Não vi 5% das pessoas que costumam frequentar a praia”, descreve o engenheiro civil Amadeu Bomman, de 29 anos, que visitou o local na semana passada. Um dos acessos à cidade foi bloqueado por caçambas, segundo moradores. Outras entradas são fiscalizadas por equipes municipais, que solicitam comprovante de residência. “É uma forma de só permitir quem tem casa por lá. Concordo com a restrição: se não tiver ação coletiva, a gente não vai combater a doença.”

Info: UOL

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