‘Não foi um acidente, não tem como ter sido um acidente’, diz advogada atropelada em protesto contra Bolsonaro no Recife

Isabela Freitas Sarev falou pela primeira vez sobre ocorrido e disse que, quando foi atingida, a preocupação era a mãe idosa. 'Fui para lá ajudar e acabei sendo vítima', afirma.

22 de outubro de 2021

Foto: reprodução

A advogada atropelada em um protesto contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em 2 de outubro, no Recife, falou pela primeira vez sobre o ocorrido nesta sexta-feira (22). Isabela Freitas Sarev, de 28 anos, contou que, no momento em que o carro a arrastou por metros, ela pensou na mãe, que é idosa e depende dela financeiramente.

“Eu não tenho o que falar, era para eu ter morrido, né? Eu sobrevivi. Não tem como explicar isso. […] Não foi um acidente, não tem como ter sido um acidente”, afirmou a advogada.
Sarev ainda não consegue colocar o pé no chão devido a fratura. Ela ficou internada no Hospital Português, no Centro do Recife, por 12 dias, parte deles na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

O atropelamento aconteceu na Avenida Martins de Barros, próximo à Ponte Maurício de Nassau, no bairro de Santo Antônio, quando o protesto já havia sido dispersado.

Ela estava a trabalho no ato, como integrante da Comissão de Advocacia Popular (CAP) da Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco (OAB-PE), como no dia em que ajudou Daniel Campelo, homem que perdeu a visão de um dos olhos ao ser atingido em outro protesto, em maio.

“Minha preocupação toda era a minha mãe, porque sou eu e minha mãe para tudo na vida. Sempre foi assim, desde quando eu nasci. E minha mãe é idosa. Então, se eu morresse, minha mãe não teria como aguentar. […] Eu fui para lá ajudar e acabei sendo vítima”, relatou.

Sarev estava indo embora quando o condutor do veículo da marca Jeep Renegade e de placa QYJ2E95, o administrador Luciano Matias Soares, furou o bloqueio que havia sido feito pelos manifestantes, atropelou e arrastou por metros a advogada.

Ele fugiu do local sem prestar socorro à vítima e disse, em entrevista ao g1, ter ido embora porque teve medo de ser agredido pelos manifestantes e que nada teria acontecido se a advogada não tivesse se pendurado no capô do carro dele.

A versão foi contestada por testemunhas que estavam no local e alegaram que o motorista do veículo acelerou, em vez de frear, apesar dos apelos de quem estava presente no local.

Segundo a advogada, pouca coisa ficou em sua memória do momento do acidente. “O que eu lembro é da parte em que eu batia muito, não sei se na parte da frente do carro ou se na parte de cima do carro […] No meu rosto, tinha muito movimento, e eu batia muito e dizia ‘eu tenho mãe'”, relatou.

Ela contou que, após o momento do acidente, acordou apenas no Hospital Português, na área central do Recife, ao lado de uma outra advogada da CAP da OAB que foi à unidade de saúde acompanhá-la.

“Eu não sabia o que estava doendo mais, se minha perna ou minha cabeça. Ela dizia para mim para ter calma, que eu ia entrar na cirurgia”, recordou.

De acordo com Sarev, no primeiro contato que teve com a mãe, ela não teve coragem de contar o que tinha acontecido, preocupada com a reação dela.

“Minha mãe é idosa, tem fibromialgia, tem depressão, como ela ia absorver isso? Que a filha única dela, que dá o sustento de casa está correndo risco de vida. Quando eu peguei o telefone e fui falar com minha mãe, disse ‘Mãe, eu caí em um buraco e estou no hospital'”, contou.

Na unidade de saúde, Sarev passou por uma cirurgia no tornozelo esquerdo, devido a uma fratura grave, e também levou quatro pontos na cabeça.

“Foi todo um medo de morte, pensando como ela [mãe] iria ficar. Porque eu ainda tive que passar pela cirurgia, quando saí da cirurgia eu fiquei sem andar, estou sem andar direito até agora, usando muleta, reaprendendo a andar”, explicou.
Sarev contou que o motorista que a atropelou não buscou contato, tampouco prestou qualquer tipo de assistência. “Não me procurou, não me deu ajuda, a muleta que eu estou usando foi doação. […] Espero justiça. E responsabilização pelos atos”, declarou.

Inquérito policial

Na terça-feira (19), Sarev prestou depoimento no Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), no bairro do Cordeiro, na Zona Oeste do Recife. A vítima também foi ao Instituto de Medicina Legal (IML), no bairro de Santo Amaro, para a realização de uma perícia traumatológica.

De acordo com a advogada e secretária da CAP da OAB Beatriz Calado há expectativa para que o inquérito seja finalizado antes dos 30 dias, que é o prazo legal inicial. “Já teve tanto a oitiva das testemunhas quanto a oitiva do suposto autor do fato. Já teve a perícia do carro e também essa semana teve o depoimento de Sarev e a perícia dela no IML”, explicou.

Ainda segundo Beatriz CAlado, a defesa não teve acesso a imagens de câmeras de segurança da área ou filmagens da Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU) ou da Secretaria de Defesa Social (SDS).

“A gente tem alguns vídeos que foram de transeuntes. Temos vídeos de uma pessoa que estava passando no ônibus e filmou, e que foram vídeos que inclusive saíram na imprensa. […] Então temos as testemunhas e também esses vídeos gravados por pessoas que estavam passando”, afirmou.

Ainda segundo Calado, a OAB-PE tem prestado assistência à Sarev, por meio da CAP. “Estamos passando o chapéu mesmo entre os membros da CAP, arrecadando esses valores para poder custear a cuidadora para poder ficar com ela até pelo menos meados de novembro quando a gente vai reavaliar”, explicou.

Na terça-feira (19), a representante da OAB-PE contou que, além de Luciano Soares e de Sarev, pelo menos outras 11 pessoas prestaram depoimento no inquérito instaurado pelo DHPP como tentativa de homicídio.

O advogado que representa o motorista informou à Globo que vai se pronunciar quando o inquérito for concluído. A Polícia Civil afirmou que não poderia repassar informações para não atrapalhar as investigações.

Info: G1

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