“A diferença do Ceará para o Brasil é que adotou medidas preventivas mais intensas”, diz cientista da Universidade de Harvard

A pesquisa é assinada em conjunto por dez cientistas dos Estados Unidos e do Brasil, que se debruçaram para analisar um padrão espaço-temporal da Covid-19 no País.

20 de abril de 2021

Foto: Reprodução

O Ceará foi um dos estados do Brasil que mais colheram resultados positivos ao adotar um conjunto de medidas preventivas mais intensas para conter a pandemia do coronavírus, do investimento na saúde, passando pelo fato de praticar o isolamento social e depois o isolamento social rígido, até às ações sociais. É o que aponta um estudo publicado na última semana na prestigiada revista científica Science.

Liderada por Márcia Castro, diretora do Departamento de Saúde Global e População da Universidade de Harvard, a pesquisa é assinada em conjunto por dez cientistas dos Estados Unidos e do Brasil, que se debruçaram para analisar um padrão espaço-temporal da Covid-19 no País.

Em conversa com demógrafa brasileira que liderou o estudo, ela explica como a equipe chegou a esse panorama geral com números captados a partir dos dados diários dos Escritórios de Saúde do Estado, cobrindo o período epidemiológico da semana 9 (23 a 29 de fevereiro) à semana 41 (4 a 10 de outubro de 2020), e concluiu que houve uma variação de padrões entre estados e municípios no que reflete a diversidade das políticas de combate ao coronavírus, aplicadas ou não, incluindo os resultados positivos do Ceará.

“De posse dos números, ficam evidentes várias diferenças e algumas surpresas. Fica nítido que a gente não pode explicar o que aconteceu (até a semana epidemiológica 41 do ano passado), mas nesse período (de março até o início de outubro/2020), por exemplo, em função das desigualdades entre estados, pois se importasse apenas isso, a região Nordeste teria de ser parecido com a região Norte. Mas não foi isso que ocorreu. No Ceará, podemos enumerar o que foi feito para tal resultado, como da vigilância, da notificação que a Secretaria de Saúde demonstrou, ao relatar que o vírus estava circulando antes do primeiro caso confirmado. Temos o problema da baixa testagem, sim, nada disso sozinho explica o que aconteceu. E é aqui que entra o nuance das medidas preventivas, das políticas públicas implementadas, quão rígidas foram as medidas adotadas ou não, tanto em nível federal quanto em nível estadual. Então, a gente traz esse ângulo e começa a ver o motivo das diferenças entre os diferentes estados, principalmente no Ceará”, ressaltou Márcia Castro.

Foto: Reprodução

Panorama

“Ações que foram adotadas pelo Estado preveniram as mortes”, garante a pesquisadora brasileira no estudo. “A diferença do Ceará para o Brasil é que adotou medidas preventivas mais intensas, em todas as áreas. O Estado aproveitou uma programa que já existia, o Cartão Mais Infância, e utiliza dados do Cadastro Único para expandir em outras ações sociais e dar um auxílio emergencial para a população. Enquanto para a maioria do Brasil a gente teve um hiato de auxílio, incluindo no início de 2021, quando tudo estava ficando fora de controle, em janeiro/fevereiro/março, o Ceará estava dando algum tipo de benefício aos cearenses. Por que isso faz diferença? Se você tem um trabalho informal, e de repente vem um lockdown, ou você está desempregado, pelo menos você tem como prover algo para a sua família”, apontou a especialista.

Interiorização de casos

O estudo demonstra que o Ceará foi o sexto estado em interiorização de casos. “Ou seja, houve uma interiorização intensa dos casos, porém, quando você olha interiorização das mortes, o Ceará cai para o antepenúltimo. Mesmo com uma sobrecarga no sistema hospitalar, e que chegou até a faltar leito de UTI no final de abril/início de maio de 2020, se teve a decisão pelo isolamento social rígido no Estado. Morreu muita gente, como em qualquer outro lugar do Brasil, mas o Ceará conseguiu reagir de tal forma que, apesar dos casos terem se propagado ao Interior, não se refletiram em mortes num nível tão intenso quanto poderia ter sido. Isso é um exemplo claro que as ações que foram adotadas, segundo nossa pesquisa, que Ceará foi um dos estados que adotou medidas mais intensas, e elas tiveram resultado na prática”, apontou a diretora do Departamento de Saúde Global e População da Universidade de Harvard.

“Felizmente, nós temos os Hospitais Regionais, que assim, como outras unidades de saúde espalhadas pelo interior do Ceará, promovem uma descentralização, fazendo com que a regionalização da saúde seja real em todo o Estado. E tem cada vez mais sendo uma política de saúde que se prova eficiente, fato registrado na pesquisa publicada da renomada revista Science, como um dos fatores que mostra como todas as regiões do Ceará enfrentaram a epidemia de forma exemplar, fazendo com que a interiorização da pandemia tivesse um impacto menor aqui”, explicou Carlos Alberto Martins Rodrigues Sobrinho (Dr. Cabeto), secretário da Saúde do Estado.

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