‘Nada vai ser mais importante para setor de serviços do que vacinação em massa’, diz pesquisador do IBGE

Para o gerente da Pesquisa Mensal de Serviços, recuperação do setor depende de resolução da crise sanitária. Volume de serviços prestados no país encerrou dezembro 3,8% abaixo do patamar pré-pandemia.

11 de fevereiro de 2021

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Receio de contágio da Covid-19 e restrição de funcionamento de diversos segmentos de serviços são os principais entraves para o setor de serviços voltar a seu pleno funcionamento no país. É o que avalia o gerente da Pesquisa Mensal de Serviços do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Rodrigo Lobo, que afirmou, nesta quinta-feira (11), que a recuperação do setor depende da vacinação em massa da população brasileira.

“Para além de qualquer medida que o governo ou as empresas possam adotar para avançar o setor, nada vai ser mais importante que uma vacinação em massa da população. É impossível dissociar uma recuperação dos serviços da questão sanitária no país”, afirmou Lobo”.
Os dados divulgados nesta quinta-feira pelo IBGE mostram que o setor de serviços registrou um tombo recorde de 7,8% em 2020. Até então, a maior queda anual tinha sido a registrada em 2016 (-5%).

Na passagem de novembro para dezembro, o volume de serviços prestados apresentou queda de 0,2%, interrompendo uma sequência de seis taxas positivas seguidas. Esse resultado coincide com o novo agravamento da pandemia no Brasil, que passou a registrar aumento no número de mortes por Covid-19 e de casos confirmados da doença.

“O que a gente percebe claramente é que o ritmo mais lento do setor de serviços, frente às demais atividades econômicas, se deve ao receio de contágio e a restrição de funcionamento do setor”, ressaltou o pesquisador.

Com o resultado de dezembro, o patamar de serviços prestados no país ficou 3,8% abaixo do observado em fevereiro, antes de ser deflagrada oficialmente a pandemia do coronavírus.

Segundo Lobo, entre junho e dezembro o setor recuperou 80% do que perdeu nos três primeiros meses da crise sanitária, “mas ainda há espaço para percorrer antes de voltar ao nível pré-pandemia”.

Dos cinco grandes segmentos do setor de turismo, três registraram, em 2020, o pior desempenho da série histórica, todos com grande dependência do atendimento presencial. Foram eles:

Serviços prestados às famílias (-35,6%),
Serviços, profissionais, administrativos e complementares (-11,4%)
Transportes, serviços auxiliares dos transportes e correio (-7,7%)

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Embora não tenha sido a maior da história, o segmento de serviços de informação e comunicação também fechou o ano no campo negativo, com queda de 1,6%. O único segmento que apresentou alta no ano foi o de “outros serviços”, com crescimento de 6,7%, a mais intensa da série histórica.

O bom desempenho de “outros serviços” foi puxado, segundo Lobo, pelos serviços financeiros auxiliares, que incluem corretoras de títulos e valores mobiliários e consultoria de investimentos, por exemplo. Segundo o pesquisador, esse crescimento dos serviços financeiros auxiliares pode ser explicado, entre outros fatores, pelo maior número de pessoas físicas investindo no mercado de ações.

Outro dado da pesquisa que evidencia o impacto da pandemia sobre o setor de serviços é o índice de atividades turísticas, que despencou 36,7% em 2020 frente a igual período de 2019.

Segundo Lobo, o mau desempenho do setor de turismo foi pressionado, sobretudo, por “todas aquelas atividades de caráter presencial”, como os ramos de restaurantes, transporte aéreo, hotéis, transporte rodoviário coletivo de passageiros, catering, bufê e outros serviços de comida preparada e agências de viagens.

Com o resultado do ano, o segmento de turismo ficou 30% abaixo do patamar observado em fevereiro. De acordo com o gerente da pesquisa, para recuperar o patamar pré-pandemia, o setor de turismo ainda precisa avançar 42,9%.

Queda de 7,7% em 9 anos
O tombo de 7,8% ao longo dos 12 meses de 2020 fez com que o setor de serviços acumulasse uma perda de 7,7% em nove anos.

Entre 2012, quando teve início a série histórica da pesquisa, e 2014, o setor havia registrado acumulado crescimento de 11,3%. Já nos três anos seguintes (2015 a 2017), houve uma perda acumulada de 11% o que, praticamente, anulou os ganhos anteriores. Entre 2018 e 2019, o setor acumulou alta de apenas 1%, resultando em apenas 0,1% de crescimento acumulado entre 2012 e 2019, o que dimensiona o tamanho do impacto negativo do ano de 2020.

Ao analisar a série histórica, porém, o gerente da pesquisa Rodrigo Lobo apontou que não se pode dizer que toda a perda acumulada ao longo dos nove anos se deu em função da crise sanitária e financeira deflagrada no ano passado.

“Não dá pra saber o que teria ocorrido com o setor de serviços se não tivesse ocorrido a pandemia”, enfatizou o pesquisador.
Questionado, Lobo negou que se possa falar em nove anos perdidos. Isso porque algumas dentre as principais atividades investigadas na pesquisa acumularam ganhos expressivos no mesmo período. O principal destaque, segundo ele, ficou com os serviços de tecnologia da informação, que acumularam crescimento de 95,6% entre 2012 e 2020.

O pesquisador ressaltou que entre os variados segmentos e atividades do setor de serviços há influências conjunturais distintas que influenciam seus respectivos movimentos de ganhos e perdas.

“Uma grande parcela dos serviços depende de renda e emprego, mas tem outras parcelas que não dependem, necessariamente, desses indicadores. Para outros serviços, por exemplo, quanto maior a capacidade de poupança da população e das empresas, mais eles deslancham. Já os serviços tecnológicos dependem, por exemplo, de inovação do setor e do próprio mercado internacional”, explicou.

“Por conta desses efeitos difusos, é difícil trazer um caráter único de análise dos serviços como um todo. Movimentar um setor com esse nível de heterogeneidade é extremamente complicado. A gente percebe que nas curvas de indústria e comércio, por exemplo, há curvas de crescimento e queda muito rápidas. Já o setor de serviços se movimenta de forma muito mais lenta”, ressaltou.

Info: G1

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